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Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007

GLOBALIZAÇÃO...MUNDO GLOBAL....ECONOMIA GLOBAL

Globalização, Mundo global, economia global, trabalho fléxivel, indemnizações para deixar de cultivar e abater árvores de fruto, multas por produzir excesso de leite...com gente a passar fome - de certeza que estou a ficar louco e pior que isso, cada vez mais leio este poema

 

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

 

JOSÉ RÉGIO

publicado por maluco q.b. às 12:40
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1 comentário:
De Neca De Campanhã a 14 de Setembro de 2007 às 16:11
A par do IF, de Rudyard Kipling, estes sao concerteza dois poemas que abonam em favor das mentes, que permanecem eternamente ....á procura. Nao sabem do quê nem para o quê..mas eternamente procuram e ansiam. As angustias do Regio, são decerto as angustias colectivas de , nao tao poucos quanto isso...mas a quem falta a coragem de assumir essa vontade de dizer , Nao!
Gosatria de ter a coragem de ser mais um Regio assumido, mas nao passo dum...Neca de Campanhã.

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